terça-feira, 23 de maio de 2017

Crônica dos burros

       

Machado de Assis - Crônica dos burros



Machado de Assis - Crônica dos burros


NÃO TENDO assistido à inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar.
Para não mentir, direi que o que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de superioridade. Posto não fosse feio, não eram as prendas físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convicção de que inventara, não só o bond elétrico, mas a própria eletricidade. Não é meu ofício censurar essas meias glórias, ou glórias de empréstimo, como lhe queiram chamar espíritos vadios. As glórias de empréstimo, se não valem tanto como as de plena propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia. Para que arrancar um homem a essa agradável sensação? Que tenho para lhe dar em troca?
Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. Mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de memória. A gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond elétrico. Assim fomos seguindo; até que, perto do fim da linha e já noite, éramos só três pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. Os dous cochilavam, eu pensava.
De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conheço um pouco a língua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, não me foi difícil apanhar o diálogo. Bem sei que cavalo não é burro; mas reconheci que a língua era a mesma. O burro fala menos, decerto; é talvez o transita daquela grande divisão animal, mas fala. Fiquei inclinado e escutei:
— Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda.
O da esquerda: — Desde que a tração elétrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.
— Claro parece; mas entre parecer e ser, a diferença é grande. Tu não conheces a história da nossa espécie, colega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem refletes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria cristã. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte.
— Que tem isso com a liberdade?
— Vejo, redargüiu melancolicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem nessa cabeça.
— Como assim? bradou o burro da esquerda estacando o passo.
O cocheiro, entre dous cochilas, juntou as rédeas e golpeou a parelha.
— Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que, quando os bonds entraram nesta cidade, vieram com a regra de se não empregar chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse tempo entoaram cânticos de alegria e abençoaram a idéia dos trilhos, sobre os quais os carros deslizariam naturalmente. Não conheciam o homem.
— Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das rédeas. Sei também que, em certos casos, usa um galho de árvore ou uma vara de marmeleiro.
— Justamente. Aqui acho razão ao homem. Burro magro não tem força; mas, levando pancada, puxa. Sabes o que a diretoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: “Engorde os burros, dê-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que eles se afeiçoem ao serviço; oportunamente mudaremos de política, all right!”
— Disso não me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond elétrico?
— O bond elétrico apenas nos fará mudar de senhor.
— De que modo?
— Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente às carroças.
— Pela burra de Balaão! exclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? nenhum prêmio? nenhum sinal de gratificação? Oh! mas onde está a justiça deste mundo?
— Passaremos às carroças — continuou o outro pacificamente —onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um só burro sabe mais o que ele lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz restituir-nos-á a liberdade…
— Enfim!
— Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma erva que aí deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre é viçosa? Enfraqueceremos; a idade ou a lazeira ir-nos-á matando, até que, para usar esta metáfora humana — esticaremos a canela. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de três, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede uma reclamação. No quinto dia sai a reclamação impressa. No sexto dia, aparece um agente, verifica a exatidão da notícia; no sétimo, chega uma carroça, puxada por outro burro, e leva o cadáver.
Seguiu-se uma pausa.
— Tu és lúgubre, disse o burro da esquerda. Não conheces a língua da esperança.
— Pode ser, meu colega; mas a esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa raça é essencialmente filosófica. Ao homem que anda sobre dous pés, e provavelmente à águia, que voa alto, cabe a ciência da astronomia. Nós nunca seremos astrônomos. Mas a filosofia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas quimeras. Cada século…
O freio cortou a frase ao burro, porque o cocheiro encurtou as rédeas, e travou o carro. Tínhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dous interlocutores. Não podia crer que fossem eles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o condutor cuidaram de desatrelar a parelha para levá-la ao outro lado do carro; aproveitei a ocasião e murmurei baixinho, entre os dous burros:
— Houyhnhnnms!
Foi um choque elétrico. Ambos deram um estremeção, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de entusiasmo:
— Que homem és tu, que sabes a nossa língua?
Mas o cocheiro, dando-lhes de rijo na lambada, bradou para mim, que lhe não espantasse os animais. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animais; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora:
— Onde está a justiça deste mundo?

Conteúdo completo disponível em:






Links:


Bacias hidrográficas do estado de São Paulo

Bacias hidrográficas - São Paulo - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Santa Catarina - Conheça seu Estado (História e Geografia)

O espaço geográfico e sua organização

A organização do espaço geográfico brasileiro

Grandes Esperanças - Charles Dickens - PDF

Just Go #JustGo - Viagem Volta ao Mundo

Boa Vista - Roraima RR - Brasil

Planta - Atividades Educativas para crianças

O Alienista PDF

Idade das Religões - Religião História

São Paulo - Conheça seu Estado (História e Geografia)

As comunidades quilombolas no estado de São Paulo na atualidade

Mato Grosso do Sul - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Atividades extrativistas do Mato Grosso do Sul

Body Like A Back Road - Sam Hunt

Aldeia Tuyuka - Manaus - Amazonas AM - Brasil

Malibu - Miley Cyrus

Quincas Borba

Dom Casmurro

Esaú e Jacó

Salmos

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Busque Amor Novas Artes, Novo Engenho

Siderações

A canção do africano

Agonia de um filósofo



Livros em PDF para Download

Anne Frank PDF

anne frank pdf

biblia pdf

Bíblia Sagrada - João Ferreira de Almeida - Bíblia

Bíblia Sagrada - Católica

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Sanderlei Silveira

Lista de BLOGs by Sanderlei Silveira



The Cold Heaven - William Butler Yeats

As festas populares em Santa Catarina SC

Áreas de preservação no estado de São Paulo SP

Os símbolos do estado do Rio de Janeiro RJ

A Guerra do Contestado PR

Pantanal – Patrimônio Natural da Humanidade MS

Assalto - Carlos Drummond de Andrade

Amor é fogo que arde sem se ver - Poesia

O navio negreiro - Poesia

Mitologia Grega

Antífona - Poema, Poesia

OPEP seguiu cumprindo acordo de redução de oferta de petróleo

Despacito letra e Tradução

Ursa Maior - Macunaíma - Mário de Andrade

Salmos - Capítulo 22 - Bíblia Online

Mercado Municipal Adolpho Lisboa - Manaus - Amazonas AM - Brasil

Mein Kampf PDF

Romeo and Juliet - William Shakespeare - AudioBook

Budismo moderno

The Second Coming - William Butler Yeats

The Road Not Taken - Robert Frost

Ozymandias - Percy Bysshe Shelley

Curso de Espanhol Online - Gratis e Completo

Curso de Inglês - Gratis e Completo

Machado de Assis

Artur de Azevedo - Contos

Audio Livro - Sanderlei

Contos de Eça de Queirós

Diva - José de Alencar - Audiobook

Educação Infantil - Nível 1 (crianças entre 4 a 6 anos)

Educação Infantil - Nível 2 (crianças entre 5 a 7 anos)

Educação Infantil - Nível 3 (crianças entre 6 a 8 anos)

Educação Infantil - Nível 4 (crianças entre 7 a 9 anos)

Educação Infantil - Nível 5 (crianças entre 8 a 10 anos)

Educação Infantil - Nível 6 (crianças entre 9 a 11 anos)

Euclides da Cunha - Os Sertões (Áudio Livro)

Historia en 1 Minuto

History in 1 Minute

Lima Barreto - Contos (Áudio Livro - Audiobook)

Livros em PDF para Download (Domínio Público) - Sanderlei

A Mão e a Luva - Machado de Assis

Crônica - Machado de Assis

Dom Casmurro - Machado de Assis

Esaú e Jacó - Machado de Assis

Helena - Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

Papéis Avulsos - Machado de Assis

Poesia - Machado de Assis

Quincas Borba - Machado de Assis

Teatro - Machado de Assis

O Diário de Anne Frank

SAP - Course Free Online

Totvs - Datasul - Treinamento Online (Gratuito)


Nenhum comentário:

Postar um comentário